Saúde de qualidade precisa ser mais acessível. Esse não é um debate ideológico nem retórico, é uma constatação objetiva. Quando o acesso falha, o problema cresce. E o custo, humano e financeiro, rapidamente se torna insustentável. Por vivência direta e prolongada na área, sei que garantir acesso à saúde exige muito mais do que boas intenções. Exige estratégia, conhecimento técnico, gestão eficiente e, acima de tudo, compromisso real com a entrega de um atendimento que funcione de verdade.
Não é uma missão simples. Especialmente dentro da Medicina em que acredito e que exerço. Uma Medicina em que o cuidado começa antes do procedimento. Começa quando o sistema funciona, quando o paciente consegue ser atendido no tempo correto, quando há previsibilidade, continuidade e resolutividade. Esse olhar não fragmenta o indivíduo. Ele enxerga o ser humano por inteiro: sua história, seu contexto, suas fragilidades e suas necessidades reais.
Essa visão está profundamente enraizada em mim. Ela surgiu muito antes da prática profissional. Surgiu dentro de casa. Meu pai, o Dr. Sebastião Ferro, sempre encarou a Medicina como um compromisso social. Nunca como um privilégio restrito, tampouco como um serviço distante da realidade das pessoas. Esse princípio foi o alicerce da fundação do Hospital e Maternidade Jardim América, em 1982. Uma instituição pensada para ser funcional, acessível e verdadeiramente centrada no paciente.
Cresci vendo meu pai e meus tios administrarem aquele hospital com dedicação, responsabilidade e respeito absoluto pela vida. Foi acompanhando, dia após dia, o exercício dessa Medicina prática e humana que compreendi o real significado de legado. Um legado que ensina, com exemplo, que ampliar o acesso não significa reduzir qualidade. Significa organizar processos, investir em gestão, valorizar equipes e tratar a saúde como política permanente de cuidado. Não como resposta simplista ou tardia às emergências.
Esse legado foi construído com ética, responsabilidade e a convicção profunda de que saúde de qualidade precisa chegar a mais pessoas. Porque quando o cuidado é acessível, ele não apenas trata doenças: ele transforma realidades, previne agravamentos, reduz sofrimento e preserva a dignidade de famílias inteiras. É uma Medicina que enxerga pessoas, cuida de pessoas e estabelece relações de confiança. Uma Medicina feita de pessoa para pessoa.
Dentro desse modelo de cuidado, a vida se iguala em importância. O atendimento deixa de ser seletivo. O olhar se humaniza. E o sentido da Medicina se amplia.
Carrego enorme orgulho dessa trajetória. Não apenas pelas instituições criadas, mas pela forma como a Medicina sempre foi exercida: com proximidade, humanidade e respeito. Trata-se de um legado que não pertence apenas à nossa família, mas às milhares de pessoas que foram atendidas, acolhidas e cuidadas ao longo de décadas de atendimento.
Esse é o princípio da Medicina em que acredito e que herdei como valor: acolher, cuidar e incluir. Tornar a saúde acessível não é um objetivo técnico, nem uma estratégia comercial. É uma missão de vida. E, pela responsabilidade que carrega, é uma missão que precisa seguir adiante.
Dr. Júlio Ferro
Médico e responsável pelo ambulatório de oncoginecologia do HC-UFG






