As mudanças climáticas têm provocado o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos em diversas partes do mundo, como tempestades severas, ondas de calor, queimadas e períodos prolongados de seca. Esse cenário impõe desafios crescentes às cidades e amplia a necessidade de ações coordenadas para reduzir impactos ambientais, sociais e econômicos. Em Goiânia, o enfrentamento aos alagamentos está diretamente relacionado à atuação do poder público e ao comportamento da população.
Diante de episódios de chuvas intensas, é comum a busca por culpados, mas a responsabilização exclusiva dos gestores públicos simplifica um problema complexo. Essa visão desconsidera tanto o histórico de décadas com investimentos insuficientes em drenagem urbana quanto a rapidez com que os efeitos da crise climática vêm se agravando. A mitigação dos alagamentos exige políticas públicas consistentes e permanentes, aliadas à corresponsabilidade social.
Segundo o gerente de Combate às Mudanças Climáticas da Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma), Gabriel Tenaglia, as normas urbanísticas mais recentes, alinhadas ao Plano Diretor, apontam a permeabilidade dos lotes privados como elemento essencial para a redução das inundações. “A incorporação de áreas permeáveis associadas ao paisagismo funcional é fundamental tanto para o controle das águas pluviais quanto para a melhoria do microclima e da qualidade ambiental urbana”, afirma.
Tenaglia explica que os alagamentos são fenômenos multifatoriais, influenciados por condições climáticas, aspectos ambientais, modelo de ocupação do solo, comportamento da população e limitações históricas da infraestrutura da cidade. Por esse motivo, a legislação urbanística do município estabelece que a mitigação desses eventos depende da atuação conjunta entre poder público, setor técnico e sociedade.
O Plano Diretor e as leis complementares nº 364/2023 e nº 368/2023 reforçam a necessidade de fortalecer a microdrenagem urbana, permitindo que a água da chuva infiltre no solo ainda dentro dos próprios lotes e no espaço urbano. Para alcançar esse objetivo, o ordenamento municipal incentiva o uso de Soluções Baseadas na Natureza (NBS), como jardins de chuva, biovaletas, pavimentos permeáveis e arborização, além da manutenção obrigatória de áreas verdes e índices paisagísticos como instrumentos legais de mitigação de riscos.
*Atuação integrada*
Somente no início deste ano, a Prefeitura de Goiânia retirou mais de 120 toneladas de resíduos de galerias pluviais e bocas de lobo da capital, evidenciando a recorrência do descarte inadequado de lixo nas vias públicas. Ao longo de 2025, os trabalhos de manutenção já contemplaram cerca de 30 mil bocas de lobo, mais de 100 mil metros de tubulações desobstruídas e a remoção de 4,4 mil toneladas de entulho dos sistemas de drenagem.
Nesse contexto, a população exerce papel decisivo ao evitar o descarte irregular de resíduos, cuidar do entorno das edificações e garantir a destinação correta do lixo doméstico. Paralelamente, o município avança em ações estruturantes, como o Fórum Goianiense de Mudanças Climáticas (GynClima), que reúne especialistas e câmaras técnicas para a formulação de políticas públicas voltadas à mitigação e adaptação climática.
Conforme indicam a legislação e os dados oficiais, a redução efetiva dos alagamentos não depende apenas de obras e investimentos, mas também do cumprimento das normas urbanísticas, da participação social e da mudança de comportamento como parte de uma estratégia contínua de enfrentamento às mudanças climáticas.







