A formação médica no país acende um alerta. O avanço acelerado de cursos privados começa a revelar seus efeitos: quase metade dos estudantes dessas instituições não atinge o nível mínimo de proficiência, levantando questionamentos sobre a qualidade do ensino e os riscos à assistência em saúde.
Os dados são do Enamed, divulgado pelo Ministério da Educação por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O levantamento apontou que apenas 57,2% dos alunos de cursos de medicina de universidades privadas foram considerados proficientes. Aplicada em outubro de 2025, a avaliação teve sua primeira edição no ano anterior e abrangeu 89 mil estudantes em 200 municípios, com o objetivo de medir a qualidade da formação médica no ensino superior.
Dos 351 cursos analisados, 107 receberam notas 1 ou 2 e deverão sofrer sanções. Entre as penalidades previstas pelo MEC estão a redução de vagas ou a suspensão da abertura de novas turmas. Apenas 99 instituições serão penalizadas, já que faculdades estaduais e municipais não estão sob gestão direta da pasta.
O deputado estadual Heitor Ferrer (União Brasil) afirmou: “O Ministério da Educação autorizou dezenas de cursos de medicina sem atender aos requisitos mínimos exigidos para a formação médica. Faltam professores qualificados, estrutura acadêmica adequada e hospitais conveniados para a prática profissional. Essas exigências são estabelecidas pelo próprio Conselho Federal de Medicina. Não há como formar médicos sem docentes suficientes e sem unidades hospitalares que garantam a prática necessária à formação”. Ferrer classificou a política de expansão acelerada como uma “tragédia nacional”.
Médicos e gestores de saúde também apontam que as deficiências evidenciadas pelo exame impactam diretamente os serviços. “Esse profissional solicita exames inadequados, faz prescrições incorretas e indica procedimentos desnecessários. Além de gerar custos, causa danos ao paciente e amplia o risco de ações judiciais contra os hospitais”, afirmou Francisco Balestrin, presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Sindhosp).
O Enamed evidenciou falhas estruturais na formação médica, sobretudo no setor privado, revelando cursos sem critérios mínimos de qualidade, infraestrutura adequada ou campos de prática suficientes. Especialistas e parlamentares alertam que a falta de preparo já afeta o atendimento, especialmente em serviços de urgência e emergência.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) reforça que a ampliação acelerada dos cursos de medicina não foi acompanhada das condições necessárias para garantir uma formação adequada, comprometendo o atendimento à população. “O mal já foi feito. Estamos tentando remendar algo extremamente sério, que é a formação médica no país”, avaliou Heitor Ferrer.
Gestores hospitalares afirmam que a carência de profissionais qualificados é mais sentida nos plantões e emergências. O problema tem impulsionado a criação de cursos voltados ao treinamento médico pós-graduação. “A maior demanda é por médicos para emergências, onde a falta de qualificação é mais grave. O profissional começa a carreira no ponto mais crítico, quando deveria ser o estágio final”, afirmou Antônio Britto, diretor-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp).
De acordo com Edmar Fernandes, presidente do Sindicato dos Médicos, a abertura desenfreada de faculdades de medicina é irresponsável. “Primeiro, precisaria ter um estudo de profissões em que existe carência no Brasil. Ora, o Brasil é um país continental, com mais de 200 milhões de pessoas, e são inúmeras as necessidades de profissionais, inclusive no mundo tecnológico. Temos carência desses profissionais e não só de médicos. Então, precisaria ter um estudo claro de onde precisa médicos, já que temos a média suficiente de médicos por habitantes no Brasil”.
Ele complementa: “Depois de ter aberto tantas faculdades de medicina, hoje temos um número de cursos semelhante ao da Índia, lembrando que a população da Índia é seis vezes maior. Será que a população está percebendo melhora no acesso à saúde? Ou estamos tendo o mesmo número de médicos nos postos, nas UPS e nos hospitais que tínhamos antes? O problema, na verdade, não é a falta de médicos, é a falta de gestão, a falta de contratação desses profissionais”.
Fernandes também ressalta a ausência de infraestrutura adequada nas faculdades privadas. “Hospitais universitários deveriam ter ambulatórios para diversas especialidades, centros cirúrgicos, UTIs, exames de imagem como raio-X, tomografia, ressonância, mamografia, enfim, todas as etapas necessárias para a formação do estudante de medicina. Sem um local adequado, não há como formar corretamente um médico. Muitos municípios não têm sequer um hospital municipal com mínima estrutura, muito menos um hospital universitário para formação prática”.
Ele acrescenta: “Por mais que não seja uma obrigação do Sindicato Médico ou da FENAM, estamos unidos com todas as entidades médicas, conselhos regionais e federais de medicina, para avaliar essas faculdades. Chegam inúmeras denúncias de estudantes, professores e da população sobre cursos que não têm número suficiente de professores ou aulas ministradas por especialistas, inclusive em áreas críticas, como emergência cardiológica. Muitas faculdades privadas cobram caro dos estudantes, mas não oferecem infraestrutura mínima nem corpo docente adequado”.
Fernandes conclui destacando a importância dos hospitais universitários bem estruturados: “Se todas essas faculdades tivessem hospitais próprios para ensino, o impacto seria enorme no SUS, porque esses hospitais atendem essencialmente 90% da população que não tem plano de saúde. Hospitais como o da UFC, no Ceará, são de excelência e atendem não só o estado, mas até pacientes de outros estados. É o modelo ideal: cursos com infraestrutura completa, permitindo que o estudante de medicina tenha formação prática de qualidade”.






