A nova escalada militar no Oriente Médio reacendeu temores nos mercados globais e já provoca reflexos diretos na economia brasileira. Após ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a tensão geopolítica elevou o preço do petróleo e fortaleceu o dólar, ampliando as incertezas sobre inflação, combustíveis e decisões do Banco Central.
A ofensiva, batizada de “Operação Epic Fury”, atingiu instalações militares e nucleares iranianas no último fim de semana. A instabilidade que se seguiu foi suficiente para provocar uma reação imediata nas bolsas e nas commodities energéticas. O barril do tipo Brent, referência internacional, acumulou forte alta em poucos dias, refletindo o chamado “prêmio de risco”, quando investidores elevam preços por receio de interrupções na oferta.
O principal foco de preocupação é o Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde transitam cerca de um terço do petróleo comercializado no mundo. Um eventual bloqueio da rota poderia comprometer o abastecimento global e levar o barril a patamares ainda mais elevados, com projeções que variam entre US$ 100 e US$ 120, caso o conflito se prolongue.
Para o economista Ricardo Coimbra, conselheiro do Corecon-CE, o movimento recente já possui um grande impacto. “Há cerca de quatro semanas, o preço do barril de petróleo estava em torno de US$ 60. Hoje pela manhã, já era negociado entre US$ 83 e US$ 84. É uma alta bastante significativa”, afirma. Segundo ele, mesmo com o anúncio de aumento de produção por parte da Opep, o mercado segue pressionado pela incerteza.
Cenário nacional
Embora a Petrobras tenha adotado uma política de preços menos automática do que no passado, o aumento no custo internacional tende a ser absorvido gradualmente. “Se a Petrobras decidir repassar esse aumento, é importante lembrar que a política de preços mudou. Hoje não é mais um repasse automático e imediato como ocorria antes. A empresa trabalha com uma média entre o que é produzido no mercado interno e o que é importado. Com a alta do petróleo no mercado internacional, o custo das importações sobe e, gradualmente, isso pressiona o preço médio da gasolina e do diesel”, explica Coimbra.
A estimativa, segundo ele, é de que os combustíveis possam registrar reajuste entre 10% e 12% nas próximas semanas, dependendo da estratégia adotada. “Tudo vai depender de até onde o preço do barril pode chegar. Se atingir US$ 100 ou até US$ 120, o que representaria uma variação próxima de 40%, veremos um repasse para os combustíveis”, projeta.
“Qualquer aumento, seja de 15%, 20% ou 30% , impacta toda a cadeia produtiva. Transporte, indústria e serviços dependem de combustível, e esse custo acaba sendo incorporado aos preços finais. Isso pode gerar pressão inflacionária no Brasil”, ressalta o economista.
Estimativas
Projeções iniciais indicam que, a depender da duração da crise, o impacto adicional pode chegar a até 0,5 ponto percentual na inflação prevista para o atual ciclo. O reflexo atinge todos os estados, inclusive o Ceará. “No caso específico do Ceará, há uma participação maior de empresas privadas na distribuição e refino, o que pode fazer com que os ajustes ocorram até de forma mais rápida, dependendo da composição de custos. Além dos combustíveis, pode haver reflexo nos preços de outros produtos no mercado cearense, afetando diretamente o consumidor final”, destaca Coimbra.
No mercado financeiro, empresas de óleo e gás tendem a se beneficiar da valorização da commodity, enquanto setores como transporte e aviação enfrentam aumento imediato de custos. Já o agronegócio pode sofrer com fretes mais caros e instabilidade em mercados compradores do Oriente Médio. Diante desse cenário, o Banco Central se vê diante de um dilema. A expectativa anterior era de continuidade na trajetória de queda da taxa Selic. Agora, com o petróleo e o dólar pressionando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a autoridade monetária pode adotar postura mais cautelosa e manter juros elevados por mais tempo para conter a inflação







