sábado , 21 de março de 2026 @ 17:21

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(Foto: RUBENS CAVALLARI/FOLHAPRESS)

Indicado de Lula gera crise e põe em risco a credibilidade do IBGE

À frente do IBGE desde 2023, sob indicação do presidente Lula (PT), Márcio Pochmann tem acumulado denúncias de perseguição, censura, autoritarismo e até mesmo de propaganda política nos conteúdos publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Entre as decisões que levam à crise de credibilidade, está a exoneração de servidores em cargos estratégicos, como Rebeca Palis, responsável pelo cálculo do PIB. A decisão gerou ruídos sobre “maquiagem” de dados. Após a sua saída, outros três integrantes da equipe deixaram suas funções em solidariedade à colega.

Menos de dez dias após a demissão de Palis, foi exonerada Ana Raquel Gomes da Silva, gerente de Sistematização de Conteúdos Informacionais. Ela era responsável pela revisão técnica de publicações do IBGE e denunciou, ainda em 2025, a suposta propaganda política do governo de Pernambuco na publicação “Brasil em Números”.

Após o caso se tornar público, Pochmann alegou que o IBGE recorreu a parcerias para viabilizar a publicação do material devido à falta de recursos e que não havia “nenhum ferimento à forma” de tratar as informações.

Para o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da República, o caso foi mais uma das “diversas outras exonerações e remoções arbitrárias” da gestão Pochmann, que vem conduzindo “uma caça às bruxas” contra servidores que fazem uma defesa técnica do Instituto.

O sindicato considerou que a publicação contém “elementos de propaganda de governo” e está “maculando o caráter imparcial e técnico historicamente reconhecido da instituição”.
A publicação traz o nome da governadora pernambucana Raquel Lyra e menciona ações e prioridades de seu governo no atendimento à população, além de citações a diferentes programas de sua gestão. Os trechos foram criticados pelo corpo técnico do órgão, mas foi mantido por decisão da presidência.

Gestão petista

As acusações não são uma novidade. O perfil “heterodoxo” e “retrógrado” do Pochmann já era conhecido do PT. Na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, ele também teve uma passagem conturbada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Na época, enfrentou acusações de aparelhamento político-ideológico e censura interna, provocando uma debandada de servidores do Instituto.

Falta de confiabilidade

Para o economista Marcos Holanda, um IBGE “apolítico e eminentemente técnico é essencial para a economia”. Ele explica que os indicadores publicados pelo Instituto orientam decisões do setor privado e também a construção de políticas públicas. “Não deve haver espaço para militância em um Instituto de estatística: simples assim!”.

“O cálculo do PIB Agrícola, por exemplo, é feito em cima de ‘previsões’ de safras. Basta ter essas previsões viesadas para gerar desconfiança. É um ônus que o IBGE tem que assumir: tem que ser e parecer independente e confiável”, analisou o especialista.

O economista não questiona as estatísticas do IBGE, reconhecidas internacionalmente, mas alerta que o órgão deve “ser e parecer independente e quando a direção superior adota posição de militância o ‘parecer’ fica prejudicado”. Para Holanda, as movimentações atípicas no quadro técnico da instituição indica que existem problemas.

Segundo ele, os indicadores do IBGE permitem medir o desempenho da economia e das políticas públicas e identificar o que está indo bem e o que precisa ser mudado. “Isso é fundamental no setor privado e no setor público. Imagina se você não confia no termômetro e não sabe se está com febre ou não?”.

Crise interna, denúncias e pedido de afastamento

De acordo com o sindicato, os servidores técnicos perderam espaço na gestão de Márcio Pochmann. Servidores afirmam que são “desqualificados” ao apontarem problemas técnicos em decisões da administração.

Um dos episódios citados foi a tentativa de criação da Fundação IBGE+, em julho de 2024. A proposta previa a estruturação de uma fundação pública de direito privado, com o objetivo de permitir a captação de recursos externos e ampliar investimentos em pesquisa e tecnologia.

O corpo técnico do Instituto alertou que a criação de uma entidade vinculada à administração pública indireta exigiria autorização legislativa, não podendo ocorrer por ato administrativo da presidência. Ainda assim, Pochmann insistiu na medida, que acabou sendo suspensa pela Advocacia-Geral da União (AGU). O órgão reafirmou a necessidade de lei específica para a iniciativa e determinou a suspensão do registro.

A proposta, somada às exonerações e à possível interferência na publicação de conteúdos do IBGE, chegou ao Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União. O órgão solicitou o afastamento de Pochmann do cargo por suspeita de irregularidades na gestão.

Para o Ministério Público, a criação de uma entidade paralela, com “possível captação de recursos próprios e atuação em áreas sensíveis de produção e tratamento de dados oficiais”, revela um “quadro institucional preocupante”. O procurador Júlio Marcelo de Oliveira entendeu que a medida não poderia decorrer de mero ato administrativo da Presidência.

“A condução do IBGE com viés autoritário, político e midiático pela gestão Pochmann é a verdadeira causa da crise em que se encontra a instituição. Sua gestão ameaça seriamente a missão institucional e os princípios orientadores do IBGE, na medida em que impõe a criação da Fundação IBGE+ como única alternativa às demandas por recursos financeiros para a realização das pesquisas e projetos que compõem nossa agenda de trabalho”, afirma carta assinada por diversos servidores.

O documento também manifesta solidariedade a diretores do IBGE que foram exonerados ou pediram desligamento por “não concordarem com as práticas da gestão”. Em janeiro de 2025, diante das críticas, a presidência do Instituto divulgou nota classificando como “desinformação e mentiras” as acusações feitas pelo corpo técnico.

Apesar dos questionamentos, o ministro Marcos Bemquerer Costa negou o pedido de afastamento e manteve Pochmann no cargo. Na decisão, ele afirmou não haver evidências de interferência na divulgação do PIB de 2025, já realizada. Também destacou a ausência de “provas robustas” de que as exonerações tenham ocorrido por irregularidades ou de que a permanência do presidente represente risco à veracidade das estatísticas oficiais.

Conflitos agravados

Também em 2025, o IBGE firmou contrato com o Serviço Federal de Processamento de Dados para a implementação do Programa Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica, com o objetivo de reforçar a “soberania de dados”. Servidores, no entanto, questionaram a necessidade técnica do acordo, considerando a estrutura já existente no Instituto.

O sindicato afirma que Pochmann tem reagido às críticas com retaliações, incluindo exonerações e mudanças administrativas. Ainda em 2025, cinco gerentes da área de Comunicação Social do IBGE, todos com longa trajetória na instituição, foram dispensados de suas funções.

Relatos internos apontam para a ausência de planejamento estratégico, decisões que atropelam fluxos consolidados e falta de documentação técnica em projetos. Também são citados a falta de diálogo e o despreparo de Pochmann para conduzir uma estrutura complexa, de atuação nacional e regida por normas rigorosas.

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