O cenário político cearense tem sido marcado por uma série de episódios envolvendo gestores municipais, lideranças dos partidos e facções criminosas. A proximidade entre líderes estaduais e prefeitos com problemas judiciais gera questionamentos sobre o rigor das coalizões partidárias.
No PSB, o presidente estadual Eudoro Santana, pai do ministro Camilo Santana (PT), tem sido cobrado pela expulsão de prefeitos cassados pela Justiça Eleitoral por envolvimento com crime organizado. É o caso de Bebeto de Choró (Choró) e Braguinha (Santa Quitéria).
Bebeto segue foragido há mais de um ano. Braguinha foi preso antes de tomar posse, mas elegeu o filho, Joel Barroso (PSB), como prefeito. Joel recebeu apoio de lideranças do PSB em sua campanha. Nenhum dos prefeitos cassados foi expulso do partido. A sigla chegou a ensaiar um processo de desligamento, mas perdeu força após as eleições suplementares.
No PT, o deputado federal José Guimarães tem sido cobrado pela proximidade com a ex-prefeita de Icó, Laís Nunes (PT), e com a atual prefeita, Aurineide Amaro Sousa (PT). Ambas são próximas de Ladislau Neto, o “Lau Neto”, líder do Comando Vermelho, que recebe milhões da Prefeitura de Icó há anos. Guimarães chegou a anunciar apoio a Laís Nunes para sua vaga na Câmara Federal, em sua tentativa de candidatura ao Senado.
Santa Quitéria e o PSB
Em Santa Quitéria, Braguinha tornou-se central após sua cassação e condenação em processo que envolveu corrupção e ligações com crime organizado, culminando em eleição suplementar.
A investigação revelou uma mansão na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, onde líderes cearenses do Comando Vermelho se alojavam para evitar operações policiais. Dois servidores da
Prefeitura de Santa Quitéria levaram R$ 1,5 milhão em espécie até o local, supostamente para financiar a reeleição de Braguinha em 2024.
Mesmo assim, Eudoro Santana não expulsou Braguinha, e o PSB manteve a influência do grupo na cidade, inclusive apoiando Joel Barroso na eleição suplementar.
Impunidade em Choró
Em Choró, situação semelhante ocorreu com Bebeto, também filiado ao PSB. Embora cassado e alvo de ordem de prisão não cumprida há mais de um ano, seu grupo político permanece protegido pelo partido. Na eleição suplementar, Paulo George de Sousa Saraiva (Paulinho, PSB), aliado de Bebeto, venceu. A direção estadual do PSB não adotou punições aos filiados.
“Quando o presidente de um partido vê um integrante cometer um crime e sequer é questionado, e não há sindicância ou expulsão, parece que o partido apoia isso. Em toda situação relacionada a facções no Ceará, sempre há alguém do PSB envolvido”, afirmou Capitão Wagner, presidente do União Brasil.
Icó e Morada Nova
No PT, as polêmicas envolvem o deputado José Guimarães. Em Icó, a gestão de Laís Nunes e Aurineide enfrentou a prisão de Lau do Icó, acusado de lavagem de dinheiro para facções criminosas. Lau aparece em relatórios da Secretaria de Administração Penitenciária e do Ministério Público como líder do Comando Vermelho no Ceará.
Lau recebeu mais de R$ 5,9 milhões da Prefeitura de Icó via contratos da Farmácia Anabelly, sendo R$ 3,3 milhões apenas em 2025. Ele também aluga imóvel à Secretaria de Educação Básica por R$ 120 mil ao ano, via contrato de dispensa de licitação desde 2018.
Em Morada Nova, a Polícia Federal prendeu cinco vereadores e a operação levou à renúncia do superintendente da Sohidra, ligada à Secretaria de Recursos Hídricos, comandada por Fernando Santana (PT), antigo aliado de Camilo Santana.








