Existe um motivo mais discreto – além da corrupção evidente – para a dificuldade crescente da esquerda em dialogar com parcelas cada vez maiores da população. E ela não está apenas na economia, na segurança pública ou nas disputas ideológicas. Ela está na arrogância.
A arrogância de acreditar que o povo não percebe.
A arrogância de acreditar que basta repetir uma narrativa milhares de vezes para transformá-la em verdade.
A arrogância de imaginar que a discordância popular é resultado de ignorância, desinformação ou incapacidade de compreensão. Para ser direta e clara: o povo não é burro.
Ao longo dos últimos anos, a esquerda brasileira abandonou algo fundamental para qualquer projeto político: a capacidade de ouvir.
Em seu lugar, construiu uma espécie de bolha pseudo-intelectual onde o discurso é elaborado para impressionar os próprios pares. São falas carregadas de conceitos, citações, termos acadêmicos e palavras que frequentemente não encontram qualquer conexão com a vida real de quem acorda cedo para trabalhar, pagar contas, criar filhos e enfrentar os problemas concretos do cotidiano.
O problema não está no conhecimento. O conhecimento é indispensável.
O problema surge quando o objetivo deixa de ser comunicar e passa a ser demonstrar erudição.
Quando o cidadão comum deixa de ser visto como alguém a ser convencido e passa a ser tratado como alguém a ser corrigido.
A política sempre foi uma atividade humana antes de ser uma atividade intelectual.
Pessoas votam com base em suas experiências, suas percepções, seus medos, suas esperanças e seus valores. Quando um grupo político passa a acreditar que esses sentimentos podem ser simplesmente substituídos por discursos elaborados em gabinetes, universidades ou redes sociais, cria-se uma desconexão inevitável.
Eles falam muito. Explicam muito. Justificam muito.
Mas não convencem.
Porque existe algo que o eleitor percebe com enorme facilidade: autenticidade.
As pessoas podem não conhecer todos os conceitos políticos. Mas sabem identificar quando alguém está tentando manipular a realidade.
Sabem perceber quando um discurso é artificial.
Sabem distinguir quem fala com elas e quem fala para si mesmo.
O maior erro de qualquer grupo político é acreditar que a população é incapaz de enxergar contradições.
A história mostra exatamente o contrário.
Governos caem, lideranças desaparecem e movimentos perdem força justamente quando passam a acreditar que são inteligentes demais para serem questionados.
A soberba produz um fenômeno curioso: ela reduz a capacidade de aprendizado.
Quem acredita já possuir todas as respostas deixa de prestar atenção nas perguntas.
E é exatamente nesse momento que começa o afastamento entre representantes e representados.
Nenhum projeto político fracassa apenas porque encontra adversários fortes.
Muitos fracassam porque passam a acreditar que não precisam mais compreender as pessoas que dizem representar.
A esquerda brasileira é a tradução dessa soberba.
Seu desafio nunca foi encontrar melhores argumentos. Mas ouvir, respeitar e trabalhar pelo que realmente importa.
Por Nara Coutrin







