Mães empreendem cada vez mais em busca da flexibilidade que o mercado de trabalho ainda não oferece. Em Goiânia, uma banca de crepe se tornou a ferramenta para garantir cuidado, renda e qualidade de vida a uma família atípica
A maternidade transforma prioridades, rotina e perspectivas. Mas o mercado de trabalho tradicional ainda parece não compreender essa realidade em sua plenitude. Horários rígidos, jornadas inflexíveis e ambientes pouco preparados para acolher as demandas da maternidade fazem com que milhares de mulheres se vejam diante de uma escolha impossível: estar presentes na criação dos filhos ou manter a estabilidade profissional.
Foi justamente dessa incompatibilidade que nasceu uma das maiores forças do empreendedorismo feminino no Brasil: a mãe empreendedora. Para grande parte delas, empreender deixou de ser apenas uma alternativa de renda e passou a ser uma estratégia do próprio ato de maternar.
A história da empreendedora Maria Rita Rocha, em Goiânia, é um retrato dessa realidade.
Em noites de feira, a banca da Maria Rita se destaca não apenas pelo aroma da massa de crepe na chapa quente, mas também pela sensibilidade com que acolhe clientes, especialmente gestantes e pessoas com deficiência física ou intelectual. Não por acaso. Foi a maternidade atípica que despertou nela a consciência de que, como costuma dizer, “o autista não espera”.
O Crepe com Amor, negócio familiar que sustenta Maria, o marido Renan e o filho Yan, nasceu praticamente junto com o pequeno, hoje com sete anos de idade. O menino, carinhosamente chamado de “crepinho”, cresceu ao lado da empresa, que surgiu da combinação entre a necessidade financeira e o desejo de estar mais presente na vida do filho.
O empreendedorismo não chegou por acaso. Foi fruto de preparo, estudo, análise, e se consolidou com o passar dos anos porque ofereceu algo que Maria Rita considera inegociável: flexibilidade para acompanhar de perto o desenvolvimento do filho.
Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Yan demanda terapias frequentes, acompanhamento constante e uma rotina adaptada. A rede de apoio da família se resume praticamente à sogra, que ajuda um dia por semana. Por isso, o casal se divide entre as tarefas da empresa e os cuidados com o menino.

Negócio de mãe
A realidade da família reflete uma tendência nacional. Segundo pesquisa do Sebrae realizada em 2024, cerca de 40% dos pequenos negócios brasileiros são comandados por mulheres. São mais de 10,35 milhões de empreendedoras, número recorde no país. Entre elas, 67% são mães.
Em 2019, ainda grávida, Maria Rita viu sua carreira no marketing perder espaço para uma nova prioridade. Após enfrentar dificuldades financeiras e perder o emprego durante a gestação — sem direito a acerto trabalhista por atuar como pessoa jurídica — encontrou no empreendedorismo uma saída.
Com apoio do marido e ajuda de familiares para comprar a primeira chapa, transformou a paixão por crepes em fonte de renda. Assim nasceu a banca que mudaria sua trajetória.
Yan e o negócio cresceram juntos. Enquanto o menino avançava em seu desenvolvimento, o Crepe com Amor enfrentava pandemia, dívidas, mudanças de formato e jornadas exaustivas que chegaram a incluir nove feiras por semana.
Hoje, é justamente dessa estrutura construída entre barracas, tendas e a solidariedade de outros feirantes que a família tira sua renda e, principalmente, a liberdade necessária para acompanhar de perto cada conquista do filho.
Os desafios continuam. A chuva pode comprometer dias inteiros de faturamento. A falta de capital de giro limita investimentos. Questões burocráticas, fiscalizações e multas fazem parte da rotina de quem vive das feiras.
“Apesar de tudo isso, eu amo trabalhar na feira. É um lugar extremamente acolhedor, diverso, onde se vê todo tipo de gente. Os feirantes também são muito unidos”, conta Maria Rita.
A pandemia trouxe mais obstáculos, mas também acelerou a reinvenção do negócio. O delivery ganhou espaço e o tradicional crepe suíço passou a dividir a atenção dos clientes com versões inspiradas no crepe francês e recheios com ingredientes regionais.
Hoje, a família participa de menos feiras, mas com foco na qualidade e na sustentabilidade da operação. “Manter padrão é uma das coisas mais difíceis. A gente faz questão de entregar sempre a mesma experiência para quem compra”, afirma.
A conexão construída com os clientes é uma das maiores recompensas. “É gratificante quando alguém diz que nunca comeu algo tão gostoso ou quando uma mãe fala que o filho não come quase nada, mas come o nosso crepe”, conta.

Feira livre
Segundo a analista do Sebrae Goiás Camilla Carvalho, as feiras cumprem papel fundamental no fortalecimento dos pequenos negócios. “As feiras funcionam como uma vitrine para o empreendedor apresentar seus produtos, testar a aceitação do mercado, conquistar clientes e criar parcerias. São espaços de aprendizado, troca de experiências e oportunidade de vendas”, explica.
Atualmente, o Crepe com Amor conta com um funcionário fixo e diaristas para eventos. O casal participa de quatro feiras por semana e segue ampliando o negócio de forma gradual.
Mais do que garantir renda, o empreendimento representa autonomia, propósito e a possibilidade de estar onde Maria Rita acredita que uma mãe precisa estar. “Quanto mais me dedico ao nosso trabalho, mais eu quero crescer, aprender e correr atrás. Eu acredito muito na força do pequeno empreendedor. Quem move este país são os pequenos”, ressalta.
Fotos: Túlio Max








