Entrou em vigor nesta quarta-feira (22) uma nova tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A decisão do governo de Donald Trump afeta cerca de 3.000 produtos e foi tomada a partir de uma investigação da Seção 301, feita pelo Escritório do Representante do Comércio dos EUA (USTR), que examina práticas comerciais consideradas injustas.
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) calcula que mais de US$ 11 bilhões (R$ 55,9 bilhões) em exportações poderão ser afetados agora, em linha com o estimado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A estimativa do governo é de US$ 5,8 bilhões (R$ 30 bilhões).
A investigação concluiu que práticas brasileiras restringem os negócios de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos -entre elas estão: comércio digital, serviços de pagamento, tarifas desleais, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Além do etanol, o novo tarifaço deve afetar exportações de máquinas agrícolas, papel e vestuário.
Com a nova leva de tarifas, o Brasil se tornará um dos países mais taxados pelos Estados Unidos, ocupando a segunda posição no ranking, somente atrás da China. Antes da nova tarifa, o Brasil estava na 13ª posição.O governo Lula (PT) estima que o tarifaço atinja 18% das exportações aos EUA. Ainda assim, mais de 2.100 produtos estarão isentos –isso inclui carne, café, petróleo, laranja, suco de laranja e partes para fabricar aviões, produtos de maior peso na pauta exportadora nacional.
Entre as justificativas apresentadas pelos norte-americanos, está a criação do sistema de pagamento Pix, que, segundo a Casa Branca, prejudicou as empresas de cartões de crédito nos Estados Unidos. Outro ponto mencionado é o desmatamento no Brasil, que, segundo os EUA, permite que os agricultores brasileiros operem com custos menores. Isso fez com que o USTR retirasse da lista de produtos isentos a celulose de alta pureza.
O governo brasileiro contesta as alegações, com dados que apontam redução do desmatamento e crescimento das bandeiras americanas de cartões no mercado brasileiro, mesmo durante a implementação do Pix. Além disso, o Brasil possui superávit na balança comercial com os EUA. O anúncio de um novo tarifaço preocupa o setor produtivo brasileiro, que viu uma queda em 20 dos 27 estados brasileiros mais o Distrito Federal nas exportações para os Estados Unidos no primeiro trimestre do ano.
“Embora não tenha sido possível alcançar um acordo, as negociações se intensificaram nos últimos meses e seguem sendo o caminho mais eficaz para a retirada Os exportadores temem que o aumento das tarifas aprofunde a retração do comércio bilateral, que já registra queda de 12,8% no primeiro semestre, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), fechando em US$ 36,4 bilhões (R$ 184,8 bilhões), com saldo favorável aos Estados Unidos em US$ 1,5 bilhão (R$ 7,6 bilhões).
As tarifas preocupam a indústria, que aponta para o agravamento dos impactos negativos das sobretaxas em vigor desde o ano passado, como a perda de competitividade em relação a fornecedores de outros países. A CNI destaca que, desde 2025, houve redução de 8,7% nas vendas de bens industriais, com destaque para produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro, pasta de madeira e óleos de petróleo.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que culpa o governo Lula pelas tarifas, afirmou que vê a aplicação de novas sobretaxas com “profunda preocupação”. Representante de um setor que direciona 20% das suas exportações para os EUA, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) destacou que as vendas ao país alcançaram US$ 3,2 bilhões (R$ 16,3 bilhões), enquanto as importações totalizaram US$ 4,8 bilhões (R$ 24,4 bilhões).
Para a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), também um dos setores mais afetados, a decisão representa um retrocesso na relação comercial. A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) criticou a tarifa adicional sobre o etanol brasileiro e afirmou que a política adotada pelo Brasil está conforme as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para a entidade, não há acordo bilateral que obrigue o país a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol americano. A Unica atribui a queda das exportações dos EUA ao mercado brasileiro principalmente ao aumento da produção nacional, sobretudo de etanol de milho.
(Douglas Gavras/Maeli Prado/Folhapress)






