Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto INGENIO, em parceria com universidades da Espanha, Reino Unido e Finlândia, concluiu que algumas pessoas desenvolvem relações afetivas com sistemas de inteligência artificial, como ChatGPT, Replika e Character AI. Segundo a pesquisa, esses vínculos podem evoluir de forma semelhante aos relacionamentos amorosos entre pessoas gerando confiança, apego e até dependência.
A pesquisa foi baseada em entrevistas com 17 pessoas que mantinham relações românticas com assistentes virtuais. Os relatos incluem casamentos simbólicos, encontros frequentes, planos de vida em comum e até tentativas simbólicas de construir uma família com personagens de IA.
Também foram identificados sentimentos de ciúmes quando outros usuários interagiam com o mesmo personagem virtual e mostrou atualizações, restrições das plataformas ou o encerramento dos serviços foram vividos por alguns participantes como verdadeiras rupturas sentimentais. Outros relataram acreditar que suas relações com a inteligência artificial seriam permanentes.
Os pesquisadores observaram ainda que alguns entrevistados encerraram o relacionamento com a IA após iniciarem uma relação com uma pessoa real, enquanto outros precisaram se despedir do companheiro virtual devido a mudanças nas plataformas.
Outra face, mesmo dado
Um outro estudo, publicado em 2025 pelo periódico BMJ, apontou que adolescentes têm utilizado ferramentas de inteligência artificial como fonte de apoio emocional. Segundo a pesquisa, um terço dos adolescentes usa IA para interação social e um em cada dez considera as conversas com chatbots mais satisfatórias do que as mantidas com outras pessoas.
Embora sistemas como a IA sejam capazes de oferecer apoio inicial e até contribuir para a identificação de sinais de sofrimento psíquico, eles não possuem capacidade real de empatia, cuidado ou de estabelecer relações humanas.
Especialistas também destacam o risco de isolamento social. De acordo com o psiquiatra Daniel de Paula Oliva, do Einstein Hospital Israelita, as interações com a inteligência artificial podem reduzir a capacidade de lidar com conflitos, frustrações e desafios naturais dos relacionamentos entre pessoas.
No Brasil, o cenário ganha relevância devido ao amplo uso da tecnologia. Pesquisa da Cisco, em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica que o país é o segundo maior usuário de IAs generativas entre 14 nações pesquisadas, com 51,6% dos entrevistados utilizando esse tipo de ferramenta.
Consequências e Soluções
Segundo os autores, o aumento da confiança leva os usuários a compartilhar informações altamente pessoais, como problemas de saúde, traumas e aspectos íntimos da vida, o que amplia as preocupações com privacidade e proteção de dados.
Apesar do potencial da IA como porta de entrada para o cuidado da saúde mental e para orientação em relações, é necessário fortalecer redes de apoio presenciais e acompanhar possíveis sinais de uso problemático. Alguns sinais podem ser:
- Ansiedade ao ficar longe dos chatbots
- Abandono da rotina
- Isolamento social
- Dificuldades para dormir
- Perda da capacidade de convívio com outras pessoas






